29 de abril de 2026

Cristo ressuscitou, aleluia! E se começássemos a viver assim?  

Queridos amigos,  

Cristo ressuscitou, aleluia! Nesta alegria, partilho convosco o mote que nos acompanhou ao longo do Tríduo Pascal neste ano de Jubileu franciscano. Escolhemos as palavras de Jesus, dirigidas a S. Francisco, naquela igreja de S. Damião, em Assis: «Vai, Francisco, e reconstrói a Minha Igreja que, como vês, está em ruínas». Ao longo dos três dias decisivos do ano cristão, tivemos oportunidade de aprofundar o significado de cada trecho.  

Na 5ª Feira Santa, na Missa vespertina da Ceia do Senhor, reflectimos sobre «a Minha Igreja», particularmente os fundamentos da Igreja Católica que Jesus institui: a caridade, a Eucaristia e o Sacerdócio dos Apóstolos. Em primeiro lugar, a Caridade manifesta-se, não apenas nas palavras, mas sobretudo nas obras de misericórdia, especialmente nesse gesto de lavar os pés aos apóstolos na Última Ceia. «Compreendeis o que vos fiz?» A força deste gesto de humildade e serviço de Jesus desarma-nos e leva-nos a compreender que o acolhimento do amor primeiro de Deus, gratuito e imerecido, é o princípio fundante da Igreja. «Fazei-o vós também», diz ainda o Senhor. A prática da caridade sem fazer acepção de pessoas é um factor de crédito da Igreja. Porém, em segundo lugar, só seremos capazes de exercer estas obras de misericórdia ou caridade se estivermos alimentados e habitados por Deus. Há então uma absoluta necessidade da Eucaristia, sacramento instituído por Jesus na Última Ceia, pelo qual Ele permanece connosco, cada vez que fazemos isto em Sua memória. Esta Presença Real de Jesus no pão e no vinho consagrados, Seu Corpo entregue e Seu Sangue «derramado por nós e por todos para remissão dos pecados», é a resposta antecipada que dá significado à morte na Cruz e ao pedido dos discípulos de Emaús no Domingo da Ressurreição – «fica connosco, Senhor». Só tal Presença e tal exemplo nos capacitam para nos amarmos uns aos outros, como Ele nos ama e nos ordena. Por fim, em terceiro lugar, a Igreja de Jesus é una, santa, católica e apostólica, isto é, assente nas colunas que são os apóstolos, ordenados sacerdotes por Jesus para continuar a Sua missão e dar-nos a Eucaristia. A Igreja não se entende sem o sacerdócio destes Doze Apóstolos e seus sucessores, escolhidos para testemunhar a nova e eterna Aliança de Deus com todos os povos da terra e para agir na Pessoa de Cristo em cada sacramento, no ensino e no serviço. A Igreja entende-se como Família e cada família também é Igreja doméstica. 

Na 6ª Feira Santa, na celebração da Paixão, logo depois de ouvirmos o relato da morte de Jesus, considerámos as ruínas da Igreja e do mundo, marcado por guerras, crises económicas, crises climáticas e destruição de lares e famílias. A dolorosa constatação das ruínas é um exercício necessário para a cura. Reconhecemos que há vários tipos de ruína. Há a ruína da fragilidade do nosso corpo e do corpo de tantas vítimas inocentes, bem como a ruína de famílias e de vasto património edificado ao longo de séculos, mas agora atingido pela força das tempestades ou pela força das bombas, por vezes consequência de uma ruína moral que atingiu o coração de tantos. A própria morte de Jesus, o Filho de Deus, é reveladora da ruína deste mundo: uma ruína moral que levou o homem a rejeitar Deus, a querer matar o Filho de Deus, como se Deus fosse oposição à liberdade, segurança e felicidade… Agora, 2000 anos depois, vemos novamente o mundo em ruína moral, consequência de um individualismo crescente, de uma pretensão de auto-suficiência sem Deus, de uma busca de prazer e riqueza, de renúncia à Verdade para cair num relativismo… no meio desta ruína moral, assistimos à consequente ruína humana, individual ou familiar. Precisamente aí, nessa ruína humana, nesta auto-destruição da humanidade, podemos cair num abismo escuro sem saída possível, sem esperança, sem amor, apenas solidão. É mesmo aí que Jesus vai! Ele vem para morrer, para nos vir buscar onde nos encontramos e nos reconciliar com o Pai. As razões da morte de Jesus enumeram-se por motivos religiosos - os Seus milagres e discursos com sabedoria e autoridade e a Sua pretensão messiânica eram considerados inaceitáveis e inacreditáveis pelos líderes dos judeus, que esperavam um Messias diferente -, por motivos políticos - Jesus é acusado de ir contra o imperador César e é abandonado injustamente pela cobardia de Pilatos, mais interessado na sua própria carreira política do que na Verdade - e por motivos teológicos - é parte do plano misterioso de Deus, porque «Deus amou tanto o mundo que lhe deu o Seu Filho» e «a Minha vida ninguém Ma tira, sou Eu que a dou». Fomos convidados a adorar a Cruz, a contemplar em silêncio a medida do amor de Deus por nós. E não há maior prova de amor do que dar a vida. Deus dá-nos o melhor de Si. Deus merece o melhor de nós! No meio da ruína, voltamos a rezar como o Bom Ladrão arrependido: “Jesus, lembra-Te de mim”.  

Na noite da Vigília Pascal e no Domingo de Páscoa, entre cânticos de Aleluia, centrámo-nos na exortação «vai e reconstrói». Não é uma exortação apenas dirigida a S. Francisco, mas também a cada um de nós, chamados pelo nome. Reconhecendo as dolorosas ruínas da Igreja e do mundo, o sepulcro vazio e a ressurreição de Jesus, testemunhada por tantos, são sinais de um recomeço, de um restauro, de uma superação da ruína da morte. Tal vitória de Jesus ressuscitado enche-nos de Esperança e apela à nossa restauração e conversão, a uma maior fidelidade a Jesus e ao Evangelho, seguindo a mesma inspiração de S. Francisco. O pobre santo de Assis ousou viver a pobreza porque lhe bastava o Evangelho. Ousou viver a obediência porque reconhecia a autoridade de Jesus na hierarquia da Igreja e levou a sério o mandato da evangelização «ide por todo o mundo». Ousou viver a castidade ou caridade pela maneira como abraçou a fraternidade universal, procurando viver em paz e harmonia com os seus irmãos frades menores, com outros crentes e não-crentes e até com todas as criaturas de Deus.    

Depois, nos dias da oitava de Páscoa, partimos em peregrinação pelos passos de alguns santos em Itália. Visitámos o baptistério de Milão onde S. Agostinho foi baptizado por S. Ambrósio (séc. IV-V), visitando ainda Pavia - lugar onde está sepultado - e Turim, onde rezámos junto a S. João Bosco (séc. XIX) e S. Pier Giorgio Frassati (séc. XX) e o Santo Sudário. Depois conhecemos S. Gemma Galgani (jovem mística de Lucca do início do séc. XX) e seguimos até Florença, onde cantámos as "saudades que eu já tinha da minha alegre casinha" e o "Avé de Fátima" no meio de um mercado de rua. Fomos até Assis e estivemos na pequena igreja restaurada por S. Francisco na Porciúncula, tendo rezado diante do Crucifixo de S. Damião e junto de S. Clara e S. Francisco (séc. XIII) e S. Carlo Acutis (séc. XXI). Seguimos até Cássia, onde pedimos a intercessão de Santa Rita (séc. XV), a padroeira das causas impossíveis. Já depois de visitar Civitavecchia e Óstia, chegámos a Roma, a cidade eterna, onde visitámos quase todas as Basílicas Maiores e ainda o lugar da conversão de S. Afonso de Ratisbonne (séc. XIX) e o santuário de Nossa Senhora da Revelação, entre outros locais especiais.   

A ressurreição de Jesus não nos pode deixar como dantes. Com os santos com quem nos cruzámos nesta peregrinação em tempo pascal, partilho convosco uma possível regra de vida:   

- Oração diária (ler/ouvir o Evangelho de manhã, rezar o Terço ao longo do dia, fazer Exame “obrigado-desculpa-ajuda-me, Jesus” de noite) 
- Missa semanal (Sábado ou Domingo e, se possível, também 5a feira ou outro dia da semana; alguma hora de adoração) 
- Confissão mensal (à volta do 1º sábado, por exemplo) 
- Caridade sempre (cuidar da família e amigos; estudar/trabalhar com amor; fazer algum voluntariado ao serviço da comunidade) 
- Evangelização a todos, todos, todos (falar de Deus a alguém cada dia e/ou ler algum livro que reforce as razões da nossa fé)   

E se começássemos a viver assim? 
Um abraço amigo do padre Tiago